90 anos de José Sarney: conheça a história do homem com a carreira política mais longa do Brasil
- Leonardo Kröhling
- 24 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de jul. de 2020
José Sarney é a pessoa com a carreira política mais longa de toda a história brasileira, superando Ruy Barbosa (1849-1923) e o Visconde de Abaeté (1798-1883).
José Ribamar Ferreira de Araújo Costa nasceu no dia 24 de Abril de 1930 na cidade de Pinheiro, no Maranhão, filho do desembargador Sarney de Araújo e Costa e Kyola de Ferreira de Araújo. Formado no Liceu Maranhense, uma das mais prestigiadas instituições de ensino do Maranhão, José Ribamar começou sua carreira política muito jovem, com apenas 14 anos, quando liderou um movimento estudantil pela queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas em 1945. Ele era conhecido como “Zé do Sarney” (nome do pai) e por ter pretensões políticas, decidiu por mudar de nome no cartório para José Sarney de Araújo Costa.

Em 1953, Sarney se tornou bacharel em Direito e passou a fazer parte da Academia Maranhense de Letras, sendo um dos nomes do pós-modernismo no estado com o movimento A Ilha, ao lado de poetas como Ferreira Gullar e Lago Burnett. Algumas de suas obras possuem alto teor erótico, e foram severamente criticadas ao longo do tempo. No ano seguinte o maranhense se filia ao Partido Social Democrático (PSD), onde se candidata a deputado federal, mas acaba não ganhando. Contudo, assume em 1955 como terceiro suplente. Em 1958, Sarney se filia a União Democrática Nacional (UDN), conseguindo se eleger como deputado federal nas eleições deste ano e em 1962.
No ano de 1965, José ganhou a disputa para governador do Maranhão, acabando com a hegemonia eleitoral de Vitorino Freire (acabou com uma para iniciar outra), porém pouco tempo passou e foi decretado o AI-2, que acabava com os partidos políticos e criava o bipartidarismo. Por conta da afinidade com o regime militar, Sarney se filiou à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – partido este que permaneceu por quase 20 anos. Após o seu mandato como governador, ele foi eleito e reeleito senador pelo Maranhão, ficando no cargo de 1970 a 1985. No ano de 1980 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e atualmente é um dos decanos há mais tempo na instituição.

Nos últimos anos do já decadente regime militar Sarney se filiou ao PMDB e no meio da euforia das eleições indiretas e a certeza de um presidente civil, seu partido o indicou para ser vice de Tancredo Neves. Sarney assumiu a presidência para a surpresa e infelicidade de todos os brasileiros, que tinham grande esperança na figura de Tancredo, que faleceu antes de assumir.

O governo de José Sarney foi marcado pela promulgação da Constituição de 1988 e uma política externa de desvinculação dos Estados Unidos, reatando relações com países comunistas como China, Cuba e a antiga URSS. Além disso, se aproximou dos países vizinhos ao Brasil, estreitando relações e estabelecendo as bases para o Mercosul. No campo econômico teve que lidar com a hiperinflação herdada da ditadura. Em seu governo foram executados quatro planos econômicos – Plano Cruzado I, Plano Cruzado II, Plano Bresser e Plano Verão – todos fracassaram e afundaram ainda mais a crise que viria a ser resolvida somente com o Plano Real em 1994. Seu governo também foi marcado por denúncias de corrupção, superfaturamento de obras, irregularidades em concorrências públicas e na excessiva concessão pública de emissoras de rádio e TV (um total de 1.028 concessões). Após a presidência, mudou seu domicílio eleitoral e foi senador pelo Amapá por três mandatos, entre os anos de 1991 e 2015.

Sarney foi o político que mais exerceu mandatos eletivos em todo o período republicano, totalizando 62 anos (superando Ruy Barbosa e o Visconde de Abaeté) e inaugurou uma verdadeira oligarquia nos estados do Maranhão e posteriormente no Amapá. Sua filha, Roseana Sarney, foi deputada federal de 1991 a 1994, governadora de 1995 a 2002 e entre 2009 e 2014, e senadora entre 2003 a 2009. Seu filho, “Zequinha” Sarney, exerceu vários altos cargos públicos, além de ter sido deputado por vários mandatos (estadual de 1979 a 1983 e federal de 1983 a 2019). Mesmo com uma fortuna calculada em mais de 250 milhões de reais, além de vários imóveis, ilhas (sendo a mais famosa é ilha de Curupu, onde tem duas mansões), jornais, emissoras de rádio e TV, e outras empresas, Sarney custou por volta de 9,7 milhões de reais aos cofres públicos por conta de privilégios dados a ex-presidentes. Em 2015, o maranhense deixou de lado a carreira política, e no ano seguinte apareceu em uma das investigações da Lava-Jato acusado de corrupção.

No ano de 2004, o político foi homenageado com a criação do município de Presidente Sarney (MA), entretanto segundo a própria constituição - que ele ajudou a promulgar -, batizar localidades com nome de pessoas em vida é ilegal. Em 2006, Jackson Lago (1934-2011) foi eleito governador do Maranhão dando fim à hegemonia de quatro décadas da família, mas foi cassado, e Roseana Sarney assumiu o governo por ser a segunda mais votada naquele ano. Isso já tinha indicado uma diminuição de influência dos Sarney, que foi confirmada com a eleição de Flávio Dino (PCdoB) em 2014 e sua reeleição em 2018.

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