Além de Luís XVI e Maria Antonieta, a Revolução Francesa também ceifou a vida do delfim Luís Carlos, que só tinha 10 anos na época.
Quando pensamos em Revolução Francesa uma das primeiras coisas que vem em nossas cabeças é a pena de morte do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta, porém pouco se fala de seus filhos. A descendência do casal de monarcas foi uma das contribuições secundárias que ajudaram a aumentar a insatisfação popular na época. Casados em 1770, como forma de criar um vínculo de amizade entre França e Áustria, Luís e Maria Antonieta demoraram 11 anos para ter um descendente homem: o delfim Luís José (1781-1789). No país havia uma lei, chamada Lei Sálica, que proibia a ascensão de uma mulher ao trono, então de nada adiantava se contentar apenas com a primeira filha, Maria Teresa (1778-1851).

Depois de Luís José nasceu também Luís Carlos (1785-1795), conhecido como Duque da Normandia, que é o varão que viria a ser o rei Luís XVII da França. Para piorar a crise, palacianos suspeitavam que Luís Carlos não fosse filho de Luís XVI, mas sim de Hans Axel Von Fersen (um aristocrata sueco) ou do Conde Artois (irmão do rei e futuro Carlos X), o qual o novo filho era muito parecido.

O delfim (nome dado ao herdeiro direto da coroa francesa) Luís José sofria de mal de Pott (uma infecção bacteriana nas vértebras) e uma sequência de diagnósticos errados fizeram com que sua saúde se tornasse muito frágil. Luís José morreu em Junho de 1789, durante a realização dos Estados Gerais e em meio a uma turbulência política criada pelo reinado meia boca de seu pai. Com isso Luís Carlos, que nunca fora educado para ser rei, acabou se tornando o novo delfim. Ele era uma criança muito mimada pela mãe e adorava praticar jardinagem por Versalhes. Em outubro de 1789, por conta do desenrolar da revolução, se mudou juntamente com a família para o Palácio das Tulherias, em Paris, onde morou até Agosto de 1792.

Até então, a família real só fora aproximada de Paris e perdido alguns poderes, porém a tentativa de fuga para a Áustria em 1791 (conhecida como Fuga de Varennes) fez com que os revolucionários decidissem por abolir a monarquia de uma vez por todas e aprisionaram o rei, a rainha e os filhos na Prisão do Templo. Luís XVI é guilhotinado em 21 de Janeiro de 1793 e Luís Carlos é aclamado como rei Luís XVII da França, tendo seus dois tios, o conde de Artois e o conde de Provença (dois futuros reis), como regentes, entretanto ambos estavam exilados em Vestfália.

No dia 3 de Setembro de 1793, Luís XVII foi separado do restante da família depois de muita resistência de Maria Antonieta, que só o liberou quando ameaçaram agredi-lo. Aos oito anos de idade, o jovem rei ficou aos “cuidados” de Antoine Simon, um sapateiro analfabeto que o espancava, torturava (dizendo muitas vezes que seus pais não o amavam mais) e o forçava ingerir álcool, além de obrigar Luís (totalmente embriagado) a cantar a Marselhesa utilizando o barrete frígio (o famoso boné revolucionário). Outro objetivo de Simon era colocar o filho contra a mãe, por isso o forçou a assinar em 6 de Outubro de 1793 uma declaração onde dizia que a rainha iniciara o menino por meio de incestos e práticas masturbatórias. No mesmo mês, Maria Antonieta, que estava presa em Conciergerie é acusada de traição, incesto com o filho, entre outras coisas; sendo levada à guilhotina.

Ameaçado com o mesmo instrumento que executara seus pais, Luís sofria com desmaios cada fez mais frequentes. Simon abandonou o jovem rei em uma cela trancada da prisão e por seis meses, onde ele ficou praticamente sem o contato com ninguém. Ele acabou morrendo no dia 8 de Junho de 1795, aos 10 anos de idade, vítima provavelmente de tuberculose ou de escrófula (inflamação dos linfonodos cervicais decorrente da tuberculose). Durante sua autópsia foi constatado uma desnutrição total, evidenciada pela sua magreza extrema, e seu coração foi retirado e conservado (o que é assunto para um outro post). O corpo foi enterrado de forma discreta num jazigo simples no cemitério Sainte-Marguerite, em Paris. Em seu caixão foi pintado um “D”, simbolizando que ali estava o delfim da França. O herdeiro do trono agora seria o conde de Provença, tio de Luís XVII e irmão de Luís XVI, que em respeito ao sobrinho, adotou o título real de Luís XVIII quando assumiu o trono em 1814.

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