Um protesto de dois atletas norte-americanos contra a discriminação racial nos Estados Unidos marcou os Jogos Olímpicos da Cidade do México. Em 17 de outubro de 1968, Tommie Smith e John Carlos, respectivamente medalhistas de ouro e bronze nos 200 metros rasos, de luvas negras e punhos cerrados ao alto, permaneceram com as cabeça inclinada durante a execução do hino nacional de seu país.
O gesto remetia aos Panteras Negras, o Partido dos Panteras Negras, foi fundado em 15 de outubro de 1966, e dentre suas atividades tínhamos a patrulha de cidadãos armados para monitorar o comportamento dos oficiais do Departamento de Polícia de Oakland, Califórnia, de modo a desafiar sua brutalidade.
A partir de 1969, os Panteras Negras desenvolveram uma série de programas comunitários e sociais, sendo estas atividades o objetivo maior do partido.

ANTECEDENTES E EVENTO
Colegas da equipe de atletismo na Universidade de San José, na Califórnia, Smith e Carlos cogitaram não participar dos Jogos, por sugestão do amigo sociólogo Harry Edwards. O grupo de Edwards, batizado de Projeto Olímpico para os Direitos Humanos (OPHR, sigla em inglês), ganhou o apoio de esportistas e líderes dos direitos civis, mas o boicote total não se materializou.
Por sorte, essa participação se materializou em uma das imagens mais famosas da história. Não mostra um atleta cruzando a meta, não é um grande momento de fair-play ou desportivismo, nem evidencia uma emoção forte, de alegria ou tristeza, provocado pela tensão do esporte. Ao invés, acontece durante a cerimônia protocolar, enquanto tocava o hino dos Estados Unidos. É a única cerimônia dos hinos que conseguiu ofuscar o que se passou em pista.
A página online dos Jogos Olímpicos recorda a final dos 200 metros de 1968 com algumas reticências. Depois de o título e a entrada falarem sobre o que aconteceu, apenas no último parágrafo há uma referência real ao protesto:
O brilhantismo dos três atletas foi ofuscado pelo protesto no pódio, ao qual Norman se juntou. Foi a única edição dos Jogos em que cada um deles participou.
A frase não desmerece o protesto, mas reforça o brilhantismo esportivo dos atletas. Uma vez que a prova dos 200 metros foi verdadeiramente emocionante e com um patamar de qualidade muito elevado. Tommie Smith foi o primeiro do grupo a estabelecer um novo recorde olímpico (20,37 segundos) na segunda série das eliminatórias, mas Peter Norman roubou-lhe duas décimas instantes depois, melhorando a marca para 20,17 segundos. Nas meias-finais as marcas voltaram a cair, John Carlos fixou o recorde em 20,12 segundos, e aumentaram o suspense para a final.
John Carlos saiu mais rápido e liderava no final dos primeiros 100 metros, mas não conseguiu manter o ritmo e foi ultrapassado pelos dois colegas de pódio. Tommie Smith continuou disparado até fixar um novo recorde mundial, tornando-se o primeiro da história a baixar da marca dos 20 segundos (19,83), enquanto o australiano Peter Norman fez uma prova imprevisível, saltando da sexta posição para a medalha de prata (20,06).
Um recorde mundial tinha se estabelecido – e duraria 11 anos –, mas a grande surpresa da dupla norte-americana estava reservada para o momento do hino dos Estados Unidos. Os dois atletas curvaram a cabeça e ergueram um braço com o punho cerrado, replicando aquilo que muitos encararam como sendo a saudação dos Black Power.
Mas há muitos pormenores por trás dessa imagem, quase que imortal. Os dois atletas estavam descalços, utilizando meias pretas para simbolizar a pobreza dos negros. Smith tinha um cachecol para representar o orgulho negro e Carlos tinha o fecho do casaco para baixo em solidariedade com os trabalhadores de colarinho azul dos Estados Unidos. Há mais: Carlos tinha um colar em memória de "todos os indivíduos que foram linchados ou mortos e pelos quais ninguém disse uma oração, ou enforcados e torturados".
Mesmo a parte mais famosa, dos punhos cerrados com os braços erguidos, tem um esquecimento por trás. O objetivo seria calçar luvas pretas mas John Carlos esqueceu-se das suas na Vila Olímpica. Foi aqui que Norman entrou em cena e sugeriu que o medalha de bronze pudesse usar a luva esquerda de Tommie Smith. É por isso que, na imagem, um atleta surge com o braço direito levantado – fiel à saudação Black Power – e John Carlos improvisa com o braço esquerdo.
Tommie Smith e John Carlos, aqui acompanhados por Peter Norman, envergaram também um selo de direitos humanos nos seus casacos. O australiano também já se tinha manifestado contra a discriminação racial na Austrália.
Carlos, um dos Panteras Negra, em entrevista coletiva após a solenidade, afirmou:
“Sabíamos que o que íamos fazer era muito maior do que qualquer façanha atlética”,
Já Smith relatou o que significava à época fazer parte de uma equipe com atletas brancos,
“Na pista você é Tomie Smith, o homem mais rápido do mundo. Mas nos vestiários você não é mais nada do que um negro sujo”.
Não há dúvidas, a imagem dos três no pódio é uma das cenas mais divulgadas e interessantes de todas as Olimpíadas contemporâneas e com o tempo se transformaria num símbolo de resiliência, ousadia e empoderamento, para ressignificar o movimento de afirmação dos negros americanos.

CONSEQUÊNCIAS
O protesto teve repercussões gigantescas. O Comité Olímpico Internacional exigiu que os atletas norte-americanos abandonassem a Vila Olímpica, e, só tiveram sucesso depois de ameaçar banir toda a equipe de atletismo. Tommie Smith fez questão de evidenciar a hipocrisia que se vivia nos Estados Unidos, um pouco à imagem do que Jesse Owens já tinha feito décadas antes.
Os três atletas sofreram na pele as consequências dos seus protestos quando regressaram para casa. Mesmo na Austrália, o governo fez questão de pressionar Peter Norman pelo ocorrido. Dos três, Tommie Smith foi o único que continuou de forma relevante no mundo do esporte, ao representar os Cincinnati Bengals na NFL.
Norman pode ter sido o mais esquecido na importância deste protesto, orquestrado pela dupla norte-americana, mas Tommie Smith e John Carlos fizeram questão de viajar até à Austrália para o funeral do seu colega de protesto, em 2006. Afinal, tinham protagonizado juntos um dos protestos mais midiáticos na história – esportiva e não só – do século XX.
REFERÊNCIAS
MONTAGUE, James.O terceiro homem: O esquecido herói do poder negro. Acesso em: 03 jun. 2020.
BEZERRA, Eudes. Protesto dos Panteras Negras nas Olimpíadas do México, 1968. Acesso em: 03 jun. 2020.
BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Século XX. São Paulo, SP: Fundamento, 2008.
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